08/07/2019 11h35 - Atualizado em09/07/2019 04h30

"Joãozinho da Patu": a ligação entre João Gilberto e rádio Aperipê AM

O cantor e violonista João Gilberto, criador da Bossa Nova, morreu no último sábado, 6, aos 88 anos, deixando um grande legado para a MPB

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Foto: Metrópolis

O cantor e violonista João Gilberto, criador da Bossa Nova, morreu no último sábado, 6, aos 88 anos. O baiano morava no Rio de Janeiro e foi sepultado na cidade de Niterói nesta segunda-feira, após o corpo ser velado no Theatro Municipal do Rio em uma cerimônia aberta ao público.

Aqui em Aracaju, logo após a triste notícia ser anunciada, começou a circular nos grupos de WhatsApp um texto intitulado “Joãozinho da Patu”, que traz um relato interessante a respeito do artista, que teve uma passagem por Sergipe, e pela rádio Aperipê AM, então conhecida como Difusora, que é pouco conhecida. De acordo com o texto, era 1944 quando Joãozinho chegou a Sergipe aos 13 anos.

O texto, reproduzido a seguir, é de autoria atribuída do professor e pró-Reitor de graduação da UFS, Dilton C. S. Maynard.

Acompanhe

Os anos 1940 foram férteis para a música sergipana. A Rádio Difusora Aperipê de Sergipe (prefixo PRJ-6), até então a única emissora local, recebia cartas escritas por admiradores de várias partes do Brasil com manifestações que empolgavam os seus cantores e músicos.

Dirigindo o Conjunto Regional da PRJ-6, o violonista Ursino Gois, o “Carnera”, era convidado a realizar espetáculos nos grandes clubes da cidade – Sergipe, Cotinguiba. Não faltavam apresentações também no Recreio Club e no Cine Teatro Rio Branco, nem garotos interessados em aprender a tocar violão, mesmo “fugindo” das famílias que não queriam ver os seus filhos metidos com “coisa de malandro”. Um destes moços era Joãozinho da Patu.

Joãozinho estudava em Aracaju. Longe da terra natal, Juazeiro, na Bahia, e da família, "Joãozinho da Patu" (uma referência à sua mãe, D. Patu) divertia-se formando conjuntos vocais com os amigos. O futebol também ajudava a afastar a saudade. O pai de Joãozinho, Juveniano de Oliveira, próspero comerciante, enviou o filho para a capital sergipana a fim de cursar o ginasial no Colégio Jackson de Figueiredo (na época, Juazeiro só possuía o curso primário).

Era 1944 quando Joãozinho chegou a Sergipe. Tinha 13 anos de idade. A Guerra fervia na Europa. Durante o tempo em que esteve na cidade, o garoto teve os primeiros contatos com o violão. Naquela época, tocar este instrumento era algo ainda muito rotulado como "coisa de boêmio". Mas em segredo, o menino teimava em praticar e recebia preciosa ajuda externa. O primeiro professor de Joãozinho foi Carnera.

À noite, quando saía para fazer seus programas, não era difícil que o músico levasse Joãozinho a tiracolo. É que, na época, o moço, que morava na casa dos tios, era vizinho do violonista. E no estúdio da PRJ-6 o menino nem lembrava da Guerra ou dos avisos da família. Atento, Joãozinho da Patu observava os artistas locais: Dão, João Melo, Guaracy Leite França, Bissextino (baterista que muito o impressionava) João Lopes. Dali, de um estúdio diminuto, aquela turma realizava esforçadas interpretações das canções de Sílvio Caldas, Francisco Alves, Carmem Miranda, Orlando Silva e tantos outros. Vez ou outra alguém mandava ao ar alguma composição própria.

Por estas e outras se dizia que o rádio em Sergipe vivia um grande momento. O menino olhava a tudo e aprendia. Depois, voltava contente para casa sob a guarda cuidadosa de Carnera. Mas os tempos mudaram. Joãozinho da Patu cresceu. E, de violão debaixo do braço, virou João, João Gilberto, cantor da bossa nova, tornou-se conhecido no mundo inteiro.